Em 2020, as milícias controlavam cerca de 37% do território do município do Rio de Janeiro, segundo dados do Fogo Cruzado e do Instituto de Segurança Pública. Em 2025, esse número subiu para mais de 52%. Em cinco anos, as organizações paramilitares que nasceram de grupos de policiais e ex-policiais expandiram seu domínio para bairros de classe média, áreas nobres e municípios da Baixada Fluminense que antes estavam fora de sua influência.

A expansão não é apenas territorial. As milícias diversificaram suas fontes de renda, passando de cobranças por "proteção" e venda de gás e internet pirata para o controle de contratos públicos, loteamentos irregulares e, em alguns casos, negócios formais como postos de gasolina, supermercados e empresas de segurança privada.

O modelo de negócios das milícias

As milícias operam como empresas criminosas com múltiplas fontes de receita. A base continua sendo a cobrança de taxas de moradores e comerciantes em troca de "segurança" — na prática, proteção contra elas mesmas. Mas esse modelo evoluiu.

Em áreas controladas por milícias, moradores são obrigados a contratar serviços específicos: internet de determinada empresa, gás de determinado fornecedor, transporte de determinada van. As empresas que fornecem esses serviços são, frequentemente, de propriedade dos próprios milicianos ou de seus familiares.

"A milícia não é mais só violência. É uma empresa. Ela tem contabilidade, tem hierarquia, tem planejamento estratégico. Combater a milícia exige entender que você está combatendo uma organização empresarial que usa a violência como ferramenta." — Pesquisador do Fogo Cruzado (nome omitido por razões de segurança)

A infiltração no poder público

O aspecto mais preocupante da expansão das milícias é a infiltração no poder público. Investigações do Ministério Público do Rio de Janeiro e da Polícia Civil identificaram, nos últimos cinco anos, pelo menos 47 vereadores, 12 deputados estaduais e 3 prefeitos com ligações comprovadas ou suspeitas com organizações milicianas.

Essa presença política garante às milícias acesso a contratos públicos, informações sobre operações policiais e proteção contra investigações. Cria, também, um ciclo perverso: as milícias financiam campanhas eleitorais, os eleitos protegem as milícias, que crescem e financiam mais campanhas.

O que as autoridades estão fazendo

A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro criou, em 2023, uma delegacia especializada no combate às milícias. Nos dois primeiros anos de funcionamento, a delegacia prendeu 89 pessoas e desarticulou 7 grupos. É um avanço, mas insuficiente diante da escala do problema.

O combate efetivo às milícias exige mais do que operações policiais. Exige investigação financeira para rastrear o dinheiro, cooperação entre diferentes órgãos de segurança e justiça, e uma reforma política que reduza a influência do crime organizado nas eleições. São mudanças estruturais que nenhum governo fluminense conseguiu implementar de forma consistente.